• Av. João Olímpio de Oliveira, 1561 - Vila Asem, Itapetininga - SP
  • (15) 3376-9930
  • Email: mat.itp@ifsp.edu.br

Notícias

Da pandemia ao pandemônio

Da pandemia ao pandemônio

Foto: Freepik

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, de O Globo, coordenado por Claudio Landim

Marcia Barbosa – Professora Titular da UFRGS e Diretora da Academia Brasileira de Ciências

Fernanda Stanisçuaski – professora do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da UFRGS

Marcia acorda, faz a sua aeróbica dentro do apartamento (coitados dos vizinhos), toma banho, coloca a roupa que usaria para ira para a universidade, toma uma xícara de café e está preparada para começar o dia que envolve pelo menos cinco reuniões on line com estudantes e colaboradores, uma gravação de aula ou entrevista e uma atividade mais solitária como retocar um artigo científico, preparar uma resposta para referee ou corrigir um cálculo de aluno. Na hora do almoço esquenta um prato de comida e volta à rotina. Termina o dia com a leitura e releitura do livro da Heloísa Buarque de Holanda, a Explosão Feminista. Apesar de sentir falta das aulas presenciais e palestras que envolvem o seu dia a dia, a pandemia não afetou a sua produtividade acadêmica. Afinal, como é física teórica, pode fazer quase tudo remotamente.

Fernanda é acordada pelo filho do meio, escalando sua cama e que, ao cair para o outro lado, acorda o mais novo, que ocupa agora o lugar do pai na cama. Em tempos de pandemia, levantar várias vezes para amamentar durante a noite não faz parte dos planos de Fernanda. Todos vão para a sala, onde está o filho mais velho assistindo ao jornal da manhã com o pai.

Café tomado, a Fernanda profissional emerge. É hora de responder aos e-mails, de pijama ainda, enquanto o pai fica com os três. O tempo voa e já é hora de preparar o almoço que, com o progredir da pandemia, nem sempre conta com as cinco cores diferentes no prato. Às vezes é monocromático, dependendo do sabor da pizza que sobrou da noite anterior. Acabado o almoço, hora da soneca do bebê, enquanto os mais velhos se ocupam com alguma atividade na sala. Segundo round de trabalho para Fernanda, que pode agora tentar submeter o artigo que está parado já faz algumas semanas. Mas, aparentemente, bebês têm dispositivos ultrassensíveis para detectar a necessidade de trabalhar da mãe e acordam dez minutos depois que ela senta no computador. O artigo continua intocado.

À tarde inicia com as aulas virtuais do filho mais velho. Enquanto o pai socorre o bebê que se jogou da poltrona e está com o lábio cortado, Fernanda (enquanto arruma de última hora o material para a aula de artes que acontecerá virtualmente).corre para tirar da frente da webcam o do meio, que estava fazendo caretas para os colegas do irmão. Bebê chorando, do meio aprontando, mais velho reclamando que a folha que ganhou para fazer o trabalho já está desenhada. Diante do pandemônio instalado, não há alternativa a não ser cancelar a reunião virtual que Fernanda teria com Marcia e a aluna de doutorado que elas orientam conjuntamente, pois o marido também precisa trabalhar.

Corte do lábio devidamente tratado, irmão do meio contido e tarefas virtuais realizadas, já é hora de banho, janta, contação de história, escovar os dentes e colocar todos para dormir. Exausta, Fernanda deita na cama e fica com o coração pesado ao pensar nas cientistas que responderam sua pesquisa sobre maternidade e ciência e afirmaram serem as únicas cuidadoras dos filhos. Fernanda não está produzindo muito durante a pandemia…. imagina aquelas que enfrentam sozinhas o pandemônio.

Além das Marcia’s e das Fernanda’s na vida acadêmica existem as pessoas que precisam cuidar de idosos e certamente estão ocupados com a produção deste apoio neste momento. Neste mundo universitário há também outros personagens mais jovens, os estudantes de pós-graduação. Estes vivem preocupados, sem nenhuma garantia que o período de suas bolsas será ampliado. Diferentemente dos estudantes de Marcia que podem fazer o trabalho remoto, a maioria das áreas científicas se alicerçam na realização de experimentos, entrevistas e testes. Todas estas atividades, frente ao confinamento, foram canceladas. Como esperar produção científica destes estudantes sem os meios para produzir?

Parece lógico que, neste momento crítico, não podemos esperar que todos dentro de suas diversidades de responsabilidades e características de suas atividades, tenham a mesma produtividade. As instituições estão se confrontando com o problema de como avaliar o trabalho remoto de diferentes profissionais. Seria um absurdo punir um(a) profissional por não manter a ritmo agora, pois cada um tem uma demanda familiar diversa. No entanto, quando na ausência de crise, é justamente isto que as instituições fazem: usam a mesma régua de avaliação de produtividade para todo mundo. Uma régua, construída por aqueles como Marcia que tem maior disponibilidade. Esta régua prejudica as mulheres e particularmente as mulheres com filhos. No Brasil sem corona, as mulheres já trabalhavam em média 10 h por semana a mais do que os homens nas atividades domésticas e de cuidado [1]. Este trabalho nunca foi contabilizado ao se selecionar, promover e apoiar uma profissional.

Como resultado desta avaliação que não leva em conta as diferenças de cargas, mulheres com filhos tem uma evolução salarial pior do que as mulheres sem filhos [2]. Notem que em média o salário das mulheres é mais baixo que o dos homens para a mesma atividade, portanto as mulheres com filhos são ainda mais penalizadas [3]. No meio científico, o grupo Parent in Science mostrou que logo após a maternidade a produção de artigos das mulheres diminui o que acarreta uma exclusão destas pesquisadoras da maratona científica [4].

Para ler o texto na íntegra acesse o site do jornal

Seu Comentário: